Plano estadual oficializado por decreto estabelece metas mensuráveis e pressiona uso de dados e fiscalização para reduzir fatalidades
O estado de São Paulo tem até 2030 para cortar pela metade o número de mortes no trânsito — um desafio que hoje envolve mais de 5 mil vítimas por ano, segundo dados do Infosiga/SP. A meta, formalizada em decreto publicado no Diário Oficial, transforma o que antes era uma diretriz em obrigação institucional, com eixos de atuação definidos, governança estruturada e previsão de relatórios anuais de acompanhamento. Segundo o Detran-SP, se o objetivo for alcançado, até 19 mil vidas podem ser poupadas no período.
O desafio do governo de São Paulo para atingimento dessa meta não pode ser subestimado. Alexandre Krzyzanovski, Diretor de Engenharia da Pumatronix, aponta que reduzir fatalidades no trânsito exige enfrentar problemas estruturais históricos, como a fragmentação de dados, a dificuldade de fiscalização em larga escala e principalmente a falta de integração entre diferentes níveis de gestão. Nesse contexto, o uso de tecnologia passa a ser um dos principais pilares para viabilizar o plano. Soluções baseadas em inteligência artificial já permitem monitorar o comportamento de veículos e pedestres em tempo real, identificar infrações automaticamente e gerar dados mais precisos para orientar políticas públicas e ações de fiscalização.
O Plano de Segurança Viária do Estado de São Paulo tem como referência a chamada Visão Zero, abordagem desenvolvida na Suécia nos anos 1990 que parte do princípio de que nenhuma morte no trânsito é aceitável. O país conseguiu reduzir sua taxa de mortalidade de dez para dois óbitos por cem mil habitantes, resultado associado à combinação de redesenho urbano, revisão de limites de velocidade e uso intensivo de fiscalização.
A velocidade, inclusive, é um dos principais focos do plano paulista. O coordenador do Sistema Estadual de Trânsito, Frederico Arantes, reconheceu que a redução de limites é uma das medidas de maior impacto — e também uma das mais sensíveis politicamente, já que muitas decisões dependem das administrações municipais. A estratégia do estado prevê atuação conjunta com os municípios para avançar nessa frente.
Para empresas que atuam no desenvolvimento de tecnologias para o setor viário, o plano representa uma mudança de patamar na forma como as políticas públicas são estruturadas. “O plano cria uma estrutura de governança que não existia no estado de SP. Quando temos uma meta mensurável, são criados os planos de ação de maneira coerente e é feito o devido acompanhamento contínuo da sua execução, o debate passa a ser pautado pelos dados e não por mera percepção”, afirma Alexandre Krzyzanovski, Diretor de Engenharia da Pumatronix. Segundo o executivo, a tecnologia disponível hoje já permite dar suporte a esse tipo de transformação. “Soluções de monitoramento inteligente conseguem identificar comportamentos de risco, apoiar a fiscalização em tempo real e gerar informações estratégicas para decisões mais rápidas e eficientes”, diz.
Tecnologias desse tipo já estão em operação em rodovias e centros urbanos brasileiros. Soluções desenvolvidas pela Pumatronix, por exemplo, utilizam câmeras com inteligência artificial embarcada para identificar veículos e pedestres em tempo real, além de sistemas de leitura automática de placas que permitem apoiar a fiscalização e integrar informações com centrais de monitoramento. A empresa também atua com sensores e equipamentos que acompanham o comportamento do tráfego sem necessidade de intervenção no asfalto, ampliando a capacidade de coleta de dados e tornando a gestão mais eficiente.
Apesar dos avanços, o principal desafio ainda está na integração dessas informações. Hoje, diferentes órgãos produzem e armazenam dados relevantes, mas nem sempre eles são compartilhados de forma eficiente, o que limita o potencial de uso dessas tecnologias na prevenção de acidentes. Com menos de quatro anos até o prazo final, o plano impõe uma corrida contra o tempo. A experiência internacional mostra que é possível reduzir drasticamente as mortes no trânsito, mas isso depende de uma atuação coordenada entre política pública, fiscalização e tecnologia desde o início.