*Por Pedro Hermano, fundador e CEO da Movvia, empresa do Grupo Pumatronix

O debate sobre o Free Flow segue sendo o centro das atenções. Com o acúmulo de multas aplicadas a motoristas que passaram por pórticos de cobrança automática sem realizar o pagamento e a crescente pressão por mecanismos de devolução desses valores, o sistema que prometia modernizar os pedágios brasileiros se vê às voltas com uma crise de confiança. A origem do problema, porém, raramente é discutida com clareza.
O Free Flow é um modelo de cobrança de pedágio sem barreiras físicas: o veículo passa pelo pórtico em velocidade normal, é identificado por câmeras e sensores, e o valor da tarifa é cobrado posteriormente por TAG, aplicativo, boleto ou PIX. A proposta é eliminar filas, reduzir emissões e modernizar a experiência nas rodovias. Na prática, porém, o elo mais fraco do sistema tem sido a comunicação com o motorista. Muitos não sabem que passaram por um ponto de cobrança, não recebem a notificação a tempo ou não encontram canais acessíveis para regularizar a situação antes que a dívida vire multa.
A sequência que leva à multa segue uma lógica conhecida: o motorista passa pelo pórtico, a passagem é registrada, mas o pagamento não é realizado dentro do prazo estabelecido pela concessionária. O débito se transforma em infração, que se acumula a cada nova passagem não paga. Para quem usa a rodovia com frequência sem conhecer o funcionamento do sistema, o resultado pode ser um conjunto de penalidades que supera em muito o valor original do pedágio. Não há má-fé nisso. Há desinformação e atrito desnecessário.
Opero há anos nesse mercado e posso afirmar com clareza: O nó do Free Flow não está na captura da imagem ou na identificação do veículo, tecnologias que já funcionam com alta precisão nas rodovias brasileiras. Está na etapa seguinte: transformar o registro da passagem em uma cobrança que chegue ao motorista de forma clara, acessível e dentro de um prazo que permita a regularização sem penalidade. Plataformas de gestão de pagamento de pedágio eletrônico, como o Pedágio Eletrônico da Movvia, buscam justamente fechar essa lacuna, integrando múltiplas formas de pagamento e conectando concessionárias a canais que o usuário já utiliza no dia a dia. A plataforma já processou mais de 23,6 milhões de transações, movimentando pelo menos R$ 379,8 milhões para as concessionárias parceiras, com cobertura de mais de 20 milhões de placas na rede. Esses números existem porque o modelo funciona: quando o caminho entre a passagem e o pagamento é simples, o motorista paga.
A lógica é direta: quanto menor o atrito entre o registro da passagem e o pagamento, menor a inadimplência e menor o volume de multas. Quando o motorista consegue pagar via PIX em poucos cliques, receber alertas antes do vencimento ou regularizar débitos por um portal unificado sem precisar baixar aplicativos específicos de cada concessionária, a chance de o débito virar infração cai substancialmente. O problema das multas acumuladas é, em boa parte, um problema de experiência do usuário.
O debate sobre devolução de multas é legítimo e sinaliza que o modelo de implementação do Free Flow no Brasil ainda tem ajustes a fazer. Mas a discussão mais estrutural é outra: como garantir que o motorista comum, sem TAG e sem familiaridade com o sistema, consiga pagar o pedágio antes de ser multado? A resposta passa menos por punição e mais por acesso, à informação clara, canais de pagamento simples e uma infraestrutura digital que funcione para quem está na estrada, não apenas para quem já conhece o sistema.Essa infraestrutura já existe. Nós a construímos. E os resultados operacionais mostram que, quando o acesso é fácil, o motorista regulariza.
O Free Flow é o modelo certo para o Brasil. O que precisamos é garantir que a modernização da cobrança venha acompanhada da modernização do pagamento. São dois lados da mesma via.
*Pedro Hermano é fundador e CEO da Movvia, empresa do Grupo Pumatronix. A Movvia é uma empresa do Grupo Pumatronix dedicada a soluções de pagamento para pedágios automatizados, oferecendo desde um portal unificado de consulta e pagamento de passagens até sistemas de recuperação de evasão, emissão de nota fiscal eletrônica e integração com operadoras de TAG. O Grupo Pumatronix é uma holding brasileira com sede em Curitiba que atua no ecossistema de mobilidade e tecnologia viária e cidades inteligentes.