Brasil prevê investir R$ 23 bilhões para IA até 2028 e tecnologia já transforma gestão do trânsito nas cidades

Plano Brasileiro de Inteligência Artificial coloca melhoria dos serviços públicos entre as prioridades; visão computacional já permite identificar infrações, comportamentos de risco e padrões de circulação em tempo real

O Brasil prevê investir aproximadamente R$ 23 bilhões em inteligência artificial até 2028 por meio do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), iniciativa que busca ampliar a infraestrutura tecnológica do país, reduzir a dependência de soluções estrangeiras e estimular aplicações da tecnologia em áreas como serviços públicos, indústria e desenvolvimento social. Entre os cinco eixos estruturantes do plano está justamente o uso da IA para melhorar a prestação de serviços públicos à população.

Parte dessa transformação, no entanto, já começa a ser percebida na infraestrutura das cidades. Na mobilidade urbana, sistemas baseados em inteligência artificial e visão computacional permitem transformar imagens captadas nas ruas em informações sobre o comportamento do trânsito, identificando automaticamente infrações, situações de risco e padrões de circulação que antes dependiam principalmente da observação humana.

Para Alexandre Krzyzanovski, diretor de Engenharia da Pumatronix, o avanço dos investimentos públicos em inteligência artificial abre espaço para que a discussão sobre a tecnologia ultrapasse aplicações mais conhecidas, como ferramentas generativas, e alcance áreas diretamente relacionadas ao funcionamento das cidades. “Quando falamos em inteligência artificial, muitas vezes pensamos em ferramentas digitais que interagem diretamente com as pessoas. Mas a IA também está presente na infraestrutura das cidades, analisando milhares de informações continuamente e transformando esses dados em conhecimento que pode apoiar decisões do poder público. Na mobilidade, isso significa entender melhor o que acontece nas vias e agir de forma mais rápida e preventiva”, afirma Krzyzanovski.

A Pumatronix, empresa brasileira especializada em mobilidade inteligente e segurança viária, é uma das companhias que já desenvolvem aplicações de inteligência artificial voltadas à infraestrutura urbana e rodoviária. O portfólio reúne câmeras inteligentes, sistemas de leitura automática de placas (LPR/OCR), módulos de IA para fiscalização, plataformas de análise de tráfego e soluções de pesagem em movimento, transformando imagens e dados captados nas vias em informações que podem apoiar a atuação de gestores públicos, concessionárias e órgãos de fiscalização.

Entre essas tecnologias estão módulos de inteligência artificial capazes de identificar automaticamente o uso de celular ao volante e a ausência do cinto de segurança. A empresa também possui soluções para detecção de infrações e comportamentos que aumentam o risco nas vias, como avanço de sinal vermelho, conversões proibidas e retornos realizados em locais não permitidos. Já a leitura automática de placas permite identificar veículos e cruzar as informações captadas com sistemas de monitoramento, enquanto a classificação veicular diferencia categorias como automóveis e caminhões e gera dados sobre a composição e o comportamento do tráfego.

 

Outra frente é a análise do próprio fluxo viário. Com o PSAT (Plataforma de Sistema de Análise de Tráfego), a Pumatronix reúne diferentes tecnologias de monitoramento em um mesmo ambiente. A plataforma combina visão computacional e inteligência artificial e pode incorporar radares Doppler e sensores de pesagem em movimento (WIM). Entre as funcionalidades estão contagem volumétrica, classificação visual, leitura automática de placas, monitoramento de velocidade por faixa e velocidade média, identificação de veículos suspeitos, classificação por número de eixos e pesagem em movimento.

Mais do que registrar ocorrências isoladas, a combinação dessas informações permite construir uma visão sobre o comportamento das vias ao longo do tempo. A partir dos dados coletados, gestores de cidades e concessionárias podem identificar padrões recorrentes, mapear pontos e horários críticos, priorizar intervenções, antecipar riscos, direcionar a fiscalização e orientar investimentos em infraestrutura. “O ganho da inteligência artificial não está apenas em identificar uma determinada ocorrência. Quando começamos a acumular e analisar esses dados, conseguimos entender padrões de comportamento das vias. Isso permite que o gestor deixe de olhar apenas para o que já aconteceu e passe a utilizar a informação para priorizar intervenções e antecipar situações de risco”, explica Alexandre Krzyzanovski. 

Nas rodovias, a tecnologia também é aplicada ao transporte de cargas. A Pumatronix oferece soluções de High Speed Weigh-in-Motion (HS-WIM), que permitem medir o peso bruto total e o peso por eixo de caminhões enquanto os veículos permanecem em movimento. Integrada à classificação automática, a tecnologia ajuda a identificar veículos que trafegam acima do peso permitido, apoiando a fiscalização e contribuindo para reduzir a deterioração precoce do pavimento, orientar a manutenção da malha viária e aumentar a eficiência operacional das concessões.

IA além do trânsito

O potencial da inteligência artificial e da conectividade para os serviços públicos também se estende a outras áreas da gestão urbana. Por meio das empresas que integram o Grupo Pumatronix, diferentes tecnologias podem compartilhar dados para ampliar a capacidade de acompanhamento da infraestrutura das cidades.

Na iluminação pública, a Smartgreen, integrante do grupo, desenvolve sistemas de telegestão capazes de acompanhar remotamente o funcionamento dos pontos de luz, identificar falhas e permitir ajustes na intensidade da iluminação. Já a Plugfield atua com monitoramento ambiental e climático, utilizando sensores e estações conectadas para acompanhar variáveis como chuva, temperatura, qualidade do ar e outras condições que podem influenciar a operação urbana e rodoviária.

Essa integração entre câmeras, sensores, sistemas de iluminação e plataformas de análise de dados acompanha um dos desafios colocados pelo próprio PBIA: fazer com que o avanço da capacidade tecnológica brasileira resulte em aplicações capazes de melhorar efetivamente os serviços prestados à população.

Além dos investimentos em aplicações de IA, o plano prevê ampliar a infraestrutura nacional necessária para sustentar essa transformação. Entre as iniciativas estão a aquisição de um supercomputador estimado em R$ 1 bilhão, a criação da chamada Nuvem Brasileira, destinada ao armazenamento e processamento de dados com tecnologia nacional, programas de formação de profissionais e investimentos em pesquisa, desenvolvimento de modelos de inteligência artificial em português e produção de chips.

Para Krzyzanovski, a ampliação dessa infraestrutura tende a acelerar uma transformação que já começa a chegar às ruas. “O próximo passo das cidades inteligentes não é simplesmente instalar mais equipamentos, mas fazer com que diferentes tecnologias conversem entre si e transformem os dados coletados em decisões. A inteligência artificial tem justamente esse papel: permitir que a infraestrutura seja mais conectada, eficiente e capaz de responder aos desafios das cidades em tempo real”, conclui.

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