A verdadeira cidade inteligente é a que serve, não a que apenas controla

*Por Alexandre Krzyzanovski

No Brasil, o conceito de cidade inteligente ainda é fortemente associado à vigilância. Câmeras, sensores e centros de comando e controle dominam os investimentos públicos e o discurso tecnológico, em especial nas grandes capitais. Embora essenciais à segurança e à gestão urbana, esses recursos representam apenas uma fração do que uma cidade verdadeiramente inteligente pode — e deve — oferecer.

Na Europa, o modelo é outro. O conceito de smart city está centrado na experiência do cidadão e na eficiência dos serviços públicos. Berlim, por exemplo, foi reconhecida entre as cidades mais inteligentes da Europa em 2023 graças ao Jelbi, aplicativo que integra transporte público, micromobilidade e carros compartilhados, permitindo deslocamentos personalizados e sustentáveis. Na Espanha, o projeto SmartAppCity consolida, em uma única plataforma, serviços como transporte, estacionamento, farmácias e alertas municipais, democratizando o acesso à informação e promovendo inclusão digital.

Esses exemplos mostram que a inteligência urbana não está apenas nas máquinas, mas na integração de sistemas e dados. A verdadeira cidade inteligente conecta meteorologia, mobilidade, saúde, segurança e educação para gerar decisões mais rápidas e políticas públicas mais eficazes. O cidadão deixa de ser espectador e passa a interagir com o ambiente urbano: agenda serviços, solicita a segunda via de documentos, matrícula filhos em escolas do governo ou reporta problemas via aplicativo — tudo em tempo real.

No Brasil, ainda há um vácuo de integração. Muitos municípios avançam em infraestrutura de monitoramento, mas carecem de plataformas interoperáveis e políticas de inclusão digital, especialmente em comunidades periféricas. Sem conectividade, o cidadão fica fora da “inteligência” da cidade — e a tecnologia, em vez de incluir, reforça desigualdades.

A integração de dados entre câmeras, pedágios, sensores climáticos, sistemas de iluminação e outros dispositivos urbanos colabora para transformar uma cidade tecnologicamente equipada em uma cidade com infraestrutura robusta para atender às demandas dos cidadãos. Mais do que acumular informações, trata-se de conectar diferentes fontes de dados para gerar inteligência coletiva e operacional, capaz de antecipar problemas, otimizar recursos e melhorar a vida das pessoas. Quando as informações trafegam de forma integrada — por exemplo, associando dados de tráfego com condições meteorológicas e padrões de mobilidade — o poder público pode agir com rapidez e precisão, ajustando rotas, controlando o fluxo de veículos e prevenindo situações de risco, como alagamentos ou congestionamentos em áreas críticas.

Além de eficiência operacional, essa integração promove gestão urbana humanizada e sustentável. Sistemas de iluminação que ajustam sua intensidade conforme o movimento de pedestres, sensores que ajudam a reduzir desperdício energético e plataformas que conectam segurança pública e mobilidade exemplificam como a tecnologia pode servir às pessoas e não apenas vigiá-las. Uma cidade inteligente é aquela que aprende continuamente com os dados — entendendo comportamentos, hábitos e necessidades — para oferecer serviços mais ágeis, seguros e inclusivos. Em vez de usar a informação como ferramenta de controle, ela a transforma em instrumento de cuidado, planejamento e qualidade de vida.

O futuro das cidades inteligentes no país depende de uma mudança de paradigma: sair do modelo reativo e passar a um modelo preditivo, participativo e orientado por dados. A cidade do futuro não é a que vigia, mas a que entende, acolhe, reage e serve.

A inteligência urbana começa quando a tecnologia deixa de ser um fim e passa a ser um meio de melhorar a vida das pessoas

*diretor de Engenharia da Pumatronix

Fique atualizado

Matenha-se por dentro das novidades tecnológicas para estradas e cidades inteligentes.